DECIMAR BIAGINI

DECIMAR BIAGINI
Advogado e Poeta Cruzaltense

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sábado, 3 de setembro de 2011

TRISTEZA DE UNS IDÉIA DE OUTROS


Bom dia menino
Qual seu nome
Me chamo de Jesuíno
Estou com fome

Fiz só uma pergunta afinal.
Como assim Doutor?
Procure a assistência social
Meu setor só verifica dor

Mas Doutor, estou com fome, pelo amor de Jesus
Ótimo, vou prescrever este remédio aqui
E o menino seguiu com a receita do SUS

Chegou num ministério
e pedia dinheiro para comprar remédio
Ninguém o levou a sério
Então o menino viu um careca de porte médio
Seu nome era Valério

O menino perguntou se ele trabalhava ali
Com um sorriso irônico falou que praticamente
O corrompedor de recursos sugeriu que saíssem dali
Disse que não poderia dar dinheiro, mas era influente

Conversou com o Ministro e sugeriu a farmácia popular
O menino morreu antes que o projeto fosse aprovado
E Valério em enriquecer sinistro viu a falácia encorpar
Pegava dez por cento em todas as licitações do seu Estado

Decimar Biagini

CONTANDO OS DIAS


Durante a jornada
Na espera do prometido
Entre desejos na madrugada
E o sonhar com o menino

Convivo com chutes
Na prospecção das mãos
Os pais são ogros rudes
Mas com molenga coração

Arthur está com um quilo
Entra no sexto mês de gestação
Na cozinha hoje me viro
Fazendo janta com inspiração

Já revirei todos os manuais
Li vídeos no tal do youtube
Não há o melhor guia para os pais
Trata-se de instintiva atitude:

- O amor incondicional!

Decimar Biagini

AO AMIGO WASIL

AMIGOS PARA SEMPRE


Irmão, eu andei perdido
Entre náuseas e tonturas
Em um tom despedido
Longe das conjecturas

A vida foi mais espontânea
Que o próprio improviso no verso
Sei que tu cruza a costa litorânea
E que um amigo distante é perverso

Mas continuarei mateando contigo
De uma forma ou de outra
Por vezes leio-te num ensolarado domingo
Com rédea curta ou solta

Se algo digo logo desdigo
A contradição de poeta é latente
Mas uníssono é o ar de amigo
Que corre a bomba na água quente

E nesse sorver da tua poesia
Relembrando épocas de parceria frequente
Surge então a lágrima de alegria
A mesma que te elegeu parente

Irmão das letras
Mamando nas tetas
Da poesia eloquente!

Decimar Biagini

ESMOLA LITERÁRIA

Esta febre, que determinei de gripe poética, foi casebre, de virtualizada dialética. Que se quebre, quem foi rei nessa hermética. Virei plebe, hostilizado em leitura cética. Parcas linhas Com subterfúgio de rimas Divagações minhas Com recurso lúdico de limas. Tanto limei as arestas do meu destino Que de poeta virei mero trovador. Tanto joguei com o frio em meu intestino. Que termino esse poema sem fervor. Talvez alguma interpretação consolativa Ou a confissão de outro poeta vencido pelo desânimo. A verve é mesmo assim, nada explicativa. E o coração absorto se projeta convencido por um anônimo: - O leitor! Decimar Biagini

O ÚLTIMO BANDEIRANTE

No alto de uma coxilha, um bandeirante encontrou um tarumã, deitou-se na busca de repouso, quando adentra no raio da sombra daquele símbolo imponente da vegetação gaúcha, escuta um trastejar similar ao de uma ondulação lateral, rapidamente sente um puxão nas suas pernas, seu corpo estremece e flexiona os joelhos, pensou na possibilidade de uma serpente, no entanto, tratava-se de uma arma muito silenciosa e peculiar naquele local, a boleadeira de um charrua, o forasteiro paulista aproveitando a posição favorável, puxa seu crucifixo e começa a rezar, quando o índio identifica tratar-se de uma cruz jesuíta, desencilha o suplicante, e, de forma implacável lhe arranca a relíquia e mostra uma pintura da Missão onde fora criado, tratava-se da mesma cruz que fora saqueada por bandeirantes em pouco menos de trezentas léguas dali, o bandeirante é então crucificado numa alta cruz de canjerana, a última coisa que viu rastejar foi o fado de sua vida bandoleira e ambiciosa. Decimar Biagini

QUERER POÉTICO

Quero sentir A última rima Num porvir De quem ensina Quero sentir Muito acima Num desmentir De quem aproxima Quero sentir Muito me anima Num despedir De quem se apruma Decimar Biagini

O SENHOR DAS MAÇAS

Quando pequeno Achava ser diferente Ter um plano terreno Aquilo não saia de sua mente Agora, é simplesmente Um pulverizador de veneno Na fazenda de um parente Colhendo maça – o fruto obsceno Mira o pomar prostrado Sozinho à janela Suspira com pesar, frustrado Sequer uma donzela Tampouco fora herói honrado Na cisma sombria frequente Amarga o resto de sua pobre vida Sequer apareceu a serpente Para lhe ofertar a maça prometida Um Adão sem Eva, sem pecado Um pequeno menino assustado Que se escondeu na tirania dos anos Envolto em um casco ressecado Sem sonho, apenas mais um ledo engano! Decimar Biagini

quarta-feira, 11 de maio de 2011

POEIRA CÓSMICA

Ritmos infradianos
Nas células cerebrais
Coração acelera mais
Faço poemas circadianos

O blog vou fomentando
Dançante em estado puro
O resto vou improvisando
Não fico em cima do muro

Todavia, esperar muito
Do poeta e sua verve
De infindável assunto
Ao incauto, nada serve

Decimar Biagini

FIXAÇÃO



A palavra se desdobra
Me perco nessa manobra
A rima exige adrenalina
Viro a frase, como uma esquina

Pensamento e sentimento
Memória em duelo de esgrima
Escrito e já lido no momento
Em que findo a estrofe acima

Os fonemas já não importam
A palavra se alforria no verso livre
Analogias essenciais nos confortam
Atento na poesia, na metáfora inclusive

Caprichar na leitura, só depois
No máximo para uma boa declamação
Leitor e Poeta, serão dois sóis
A buscarem órbita na identificação

A ação social criadora
Enxerga o final do poema sem faróis
A chave de ouro vindoura
Tentará concluir aquilo que restou de nós

Decimar Biagini

O RUBOR DA NATUREZA

Ele pega na mão dela
Ela se afasta lentamente
Separados pela janela
Eles parecem tão sorridentes

A doce inocência
Um desvendar interiorano
Sem TV, sem demência
Devagar quase parando

E seguem namorando
Com a supervisão da espingarda
- Vou lá, estão me chamando
Diz com vermelhidão em sua pele parda

- Tudo bem meu amor, fico esperando
- Casamento na roça é sério, mas não tarda!

Decimar Biagini

terça-feira, 10 de maio de 2011

SUCESSO ANÔNIMO - MARIA RABALDO FREITAS

Maria Rabaldo Freitas é assinante da Zero Hora há 25 anos, nunca ganhou uma bala do grande jornal. Tampouco foi convocada a participar do conselho do leitor. Por isso minha homenagem a esta pessoa tão importante para o enriquecimento da mídia informativa no Brasil. Maria saiu do anonimato no google em 30 de abril de 2010. Jamais foi citada na Wikipedia. Mesmo assim ela mereceria um concerto de Lang Lang, pois ninguém seria tão persistente a ficar in albis por tanto tempo.

Este poeta estará comprometido com figuras anônimas toda quarta-feira.

VISÕES E GOSTOS

Existe grande diferença
entre o que gosta do que ve,
e aquele que ve o que gosta.

O primeiro se deixa levar pela supresa,
o segundo causa certo medo,
pela absurda obsessão.

Decimar Biagini

SOL A PINO

A alma trabalhada
Pelos séculos do relógio
Povoada e coroada
Fulcrada no ilógico

De sombra cintilada
Queimada em súbito
Do poeta não se leva nada
Imortal é o poema lúdico

Pois desperta a criança
Marcada no velho ponteiro
Do sorriso que não cansa
Ao sentir no toque do meio dia
Aquele nostálgico cheiro
Da comida forte, da dona Maria

Decimar Biagini

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Homenagem a sua mãe: Jonara Maria

APOTEÓTICA CANÇÃO

Eu não esqueci
Do que teu corpo me fez
De tudo que senti
Quando te tive naquela vez

Do que a Deus pedi
Na manhã orvalhada
Quando me despedi
Te chamando de amada

Minha alma doi por ti
Sobretudo de amor
Julguei perdido, e daí
Hoje te peço por favor
Volta para mim
Pois no vazio dessa dor
Ficar sozinho é o pior fim
Para um poeta cantor

Decimar Biagini

DOIS POEMAS DIÁRIOS

As tantas folhas que não escrevi

Não é culpa do leitor este pranto
E sim da minha falta de criatividade
Como quem deixa o sapato num canto
E abdica de trilhar a busca da verdade
Por conta do fardo do amor e seu ledo encanto
O poeta já perdeu a credulidade na outra metade

No entanto, não é culpa do leitor minha felicidade
Como quem segue cego o caminho do nirvana
E com os amplos olhos da luz do coração, na flor da idade
Nem serenata, nem alfarrábios, só a musa me chama
É como a rosa única, o anjo místico, o amor de verdade
Como pode um poeta em verve, sair tão rápido da lama?

Vida de poeta é uma freqüencia que beira a bipolaridade
Sim, as tantas folhas que não escrevi foram sentidas por quem ama!

Decimar Biagini

ÂNIMO EXALTADO

Ele acordou
Foi urinar
Então retornou
Voltou a urinar
Pigarreou
Seguiu a ninar

Levantou antes do galo
Tocou as trinta badaladas
No cume de sua igreja serrana
Voltou pensando, mais uma mijada
Tão enferrujado quanto aquele badalo
Tornou a deitar em sua cama
Queixou-se a Deus por sua sina

Da razão de morrer sozinho e velho
Nenhum sinal, nem mesmo uma luz
Pegou então seu alfarrábio vermelho
E começou a relatar sobre sua pesada cruz

Torna a levantar, vai ao banheiro
Veste-se e vai ao altar, falar mal do dinheiro
Das furnicações da carne e do álcool

Depois ergue a óstia e o cálice de vinho
Como um raio, busca um ânimo exaltado
Fala da carne e do sangue do Salvador
Depois retorna à sacristia, deita em seu ninho
E lá conta com alegria, o dízimo ofertado ao Criador

Decimar Biagini

Qual tema nos poemas mais te atrai?